Projeto vai quantificar estoque de carbono no Brasil

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Iniciativa Carbon Countdown percorrerá todos os biomas brasileiros para coletar amostras de solo e vegetação com investimento de R$ 100 milhões via parceria entre CCARBON, Shell e Petrobras

Elton Alisson | Agência FAPESP – Nos próximos meses, pesquisadores vinculados a diversas universidades e instituições de pesquisa do Brasil percorrerão o país com o objetivo de coletar amostras do solo e da vegetação de cerca de 6,5 mil locais. Por meio da análise desses materiais, a equipe pretende quantificar, pela primeira vez, os estoques de carbono de todos os biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa.

A expectativa é gerar um banco de dados público para calibrar e criar a primeira linha de base de carbono no solo e na vegetação em todo o território nacional. Com base nesse parâmetro, será possível posicionar melhor o país no mercado de carbono, utilizando inventários lastreados em dados robustos e confiáveis. Além disso, a iniciativa permitirá realizar avaliações mais precisas das perdas reais de carbono do solo decorrentes da conversão do uso da terra, bem como dos ganhos obtidos por meio de projetos de reflorestamento, avaliam os idealizadores da iniciativa.

Denominado Carbon Countdown (Contagem Regressiva do Carbono), o trabalho será conduzido no âmbito do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP, e será realizado em parceria com a Shell e a Petrobras.

O projeto contará com investimentos da ordem de R$ 100 milhões, viabilizados pela Cláusula de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Essa obrigação contratual exige que empresas petrolíferas que exploram campos com alto volume de produção invistam 1% de sua receita bruta em projetos de pesquisa, tecnologia e inovação no setor.

“O Carbon Countdown representa um dos maiores projetos já conduzidos na Universidade de São Paulo [USP] e uma das maiores iniciativas nessa temática hoje no mundo. O objetivo é suprir a lacuna de dados primários e fornecer uma base de evidência em campo para lastrear o mercado de carbono e as políticas de transição energética do país, baseadas em ciência”, diz à Agência FAPESP Maurício Cherubin, vice-diretor do CCARBON e um dos coordenadores do projeto.

Logística continental

Para enfrentar o desafio de cobrir todo um território de dimensões continentais, o Carbon Countdown vai operar por meio de uma coordenação central ligada a diversos hubs regionais. A estratégia envolve parcerias com universidades e institutos federais e uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de modo a garantir o protagonismo de pesquisadores locais que compreendem as complexidades de cada bioma.

“Conseguimos firmar parcerias para contar com um time de pesquisadores local em cada bioma, o que é essencial para o desenvolvimento das atividades. Seria impossível termos percepção acurada do país como um todo estando apenas em Piracicaba [onde está localizada a Esalq-USP]”, afirma Cherubin.

Na primeira etapa, os pesquisadores vão elaborar protocolos específicos para estabelecer a estratégia de trabalho em cada bioma. Essa etapa é fundamental, uma vez que cada bioma apresenta particularidades de relevo, temperatura, vegetação e tipo de solo, pondera o pesquisador.

“Vamos considerar essas variações locais e os diferentes usos da terra para definir pontos de amostragem que sejam verdadeiramente representativos dos biomas”, explica o coordenador. “O Brasil também é recortado por diferentes tipos de solo, que precisam estar todos representados no banco de dados.”

Metodologia com rigor do IPCC

A coleta dos dados primários em campo representa o cerne do projeto e deve resultar em 250 mil amostras de solo para quantificação do carbono e mais de 400 mil para determinar indicadores de densidade, textura e propriedades químicas. Além disso, os pesquisadores estimam que dezenas de milhares de amostras da vegetação serão coletadas para determinação da biomassa, do carbono e para identificação das espécies.

Após a coleta, as amostras de solo serão encaminhadas aos laboratórios regionais para serem processadas (moagem e secagem) e submetidas a um analisador elementar via combustão a seco para determinação do carbono, objeto central do projeto.

No equipamento, as amostras de solo e de vegetação são incineradas em uma temperatura de mais de 1.000 °C. Nesse processo, todos os elementos orgânicos do material são transformados em CO₂ e quantificados.

Por meio do cruzamento dessas medições com variáveis climáticas, de relevo e vegetação dos locais onde as amostras foram coletadas e do uso de sistemas de modelagem e técnicas de machine learning, é possível extrapolar as medições e estimar o estoque de carbono em áreas extensas. “Essa metodologia segue rigorosamente o padrão estipulado pelo IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas]”, ressalta Cherubin.

Além dos métodos tradicionais, o projeto vai testar tecnologias de ponta. Para o solo, serão empregadas análises por espectroscopia; para a vegetação, será utilizada a tecnologia Lidar (Light Detection and Ranging), um sistema de sensoriamento remoto que utiliza pulsos de laser para criar mapas 3D precisos.

“O sensor gera uma ‘nuvem de pontos’ tridimensionais, o que nos permite obter uma estimativa muito precisa da volumetria da biomassa florestal”, explica Cherubin. Futuramente, os pesquisadores pretendem utilizar o banco de dados gerado para validar tecnologias desenvolvidas por startups brasileiras que ainda não possuem reconhecimento internacional.

“Nossa ideia, no futuro, é fornecer para startups um conjunto de dados obtidos por meio do projeto para elas testarem e verificarem como se comporta a tecnologia que estão desenvolvendo para análises de carbono no solo e na vegetação”, diz.

Mercado de carbono

De acordo com o pesquisador, a elaboração de uma linha de base de carbono no solo e na vegetação corresponde aos maiores custos de projetos voltados para a construção de mercados de crédito de carbono.

Por meio dela, é possível realizar mais facilmente e com maior nível de confiança o monitoramento, a verificação e o reporte das informações de carbono. Além disso, permitirá baratear o custo de avaliações futuras.

“Também esperamos que essa linha de base seja útil para conseguirmos mapear regiões com maior potencial de sequestro de carbono no país”, aponta Cherubin.

Fonte: https://agencia.fapesp.br/projeto-vai-quantificar-estoque-de-carbono-no-brasil/57517

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