Tecnologia impulsiona produção de lúpulo no Brasil

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Projeto desenvolvido no Vale do Ribeira (SP) permite extrair compostos aromáticos e bioativos com alta eficiência, reduzindo custos logísticos e aumentando a qualidade da cerveja

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Apesar de ser o terceiro maior produtor e consumidor de cerveja do mundo, o Brasil ainda depende quase que completamente da importação de lúpulo. Isso porque menos de 1% do ingrediente responsável pelo amargor, aroma e sabor da cerveja é cultivado localmente. No entanto, um novo projeto com cientistas e produtores do Vale do Ribeira (SP) busca mudar esse cenário e tornar a produção nacional de lúpulo mais eficiente e viável, além de impulsionar o desenvolvimento de novos bioprodutos.

O projeto, que nasceu dentro do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, com sede na Universidade Estadual Paulista (Unesp) –, está apostando na extração supercrítica com dióxido de carbono (CO₂), uma tecnologia já consolidada em países como Alemanha e Estados Unidos. O método permite extrair compostos aromáticos e bioativos do lúpulo com alta eficiência, reduzindo custos logísticos e aumentando a qualidade da cerveja.

“Normalmente o lúpulo brasileiro é vendido em pellets [flores desidratadas e prensadas] para cervejarias. No entanto, com essa tecnologia, o lúpulo pode ser comercializado no formato de óleo, o que, além de ganhos logísticos, confere resultados na produção da cerveja muito superiores aos métodos convencionais”, explica Levi Pompermayer Machado, professor da Unesp e um dos pesquisadores envolvidos no projeto.

Além do CBioClima, integram o projeto o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), a incubadora Aquário de Ideias, com startups do Vale do Ribeira, além da Bioativos Naturais e a Kalamazoo – duas empresas apoiadas pelo programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP. Os produtores integram o programa SP Produz 2025, do Governo do Estado de São Paulo, que oferece apoio estratégico ao fortalecimento de cadeias produtivas locais.

No estudo, publicado na revista Biomass Conversion and Biorefinery, os pesquisadores compararam a extração do lúpulo da empresa Atlântica Hops, localizada em Juquiá (SP), pelo método convencional e pelo método supercrítico por CO2. Enquanto a extração tradicional – feita com solventes orgânicos ou por uma técnica conhecida como arraste a vapor – rende cerca de 15% de extrato com 9% de α-ácidos (compostos responsáveis pelo amargor da cerveja), a técnica com CO2 alcança até 72% de α-ácidos. Além disso, o processo resulta em menor volume, melhor conservação e aumento de até 20% na produtividade da cerveja.

“Cada lúpulo tem uma peculiaridade de sabor, que é definido pelo que chamamos de terroir, e é isso que a indústria procura. No estudo, também realizamos análises sobre o perfil sensorial do extrato do lúpulo em pellets e do extrato que a gente produziu. Houve uma pequena alteração de sabor, mas se manteve mais ou menos a mesma assinatura sensorial do produto. Portanto, com toda essa melhora de eficiência e qualidade, as características do terroir são quase que inteiramente mantidas”, conta.

Machado ressalta que a tecnologia testada no Vale do Ribeira também se destaca por seguir os princípios da química verde. Isso porque, nos métodos tradicionais, utiliza-se grande quantidade de água ou solventes derivados do petróleo para separar os óleos essenciais do lúpulo.

Já a extração supercrítica utiliza o dióxido de carbono em condições de alta pressão e temperatura, em que ele assume um estado entre o líquido e o gasoso (estado supercrítico). É dessa forma que o CO2 atua como solvente natural, penetrando profundamente na matéria-prima e extraindo seus compostos com alta eficiência.

“Fora isso, o CO2 utilizado na tecnologia supercrítica é recapturado ao final do processo, evitando emissões atmosféricas e eliminando resíduos químicos no extrato. Isso torna o método não apenas mais eficiente, mas também ambientalmente responsável”, afirma Machado.

Segundo o pesquisador, o objetivo principal do projeto é oferecer aos produtores opções de cultivo com menor impacto ambiental e maior valor agregado (como é o caso do lúpulo) no lugar de expandir fronteiras agrícolas com commodities de baixo retorno, como soja e cana.

“Estamos falando em produzir mais em uma área cultivada muito menor, com uma cultura que responde bem às mudanças climáticas e oferece múltiplas possibilidades de mercado”, destaca o pesquisador.

Economia circular

Outro diferencial é que os extratos obtidos com a tecnologia não se limitam à indústria cervejeira, podendo também atender o setor de cosméticos e de farmacêuticas. Além dos extratos, os pesquisadores também analisaram os resíduos que sobraram após a extração (spent hop).

De acordo com Johana Marcela Concha Obando, bolsista de pós-doutorado no INCT NanoAgro da Unesp e envolvida no projeto, o rejeito do lúpulo ainda carrega compostos bioativos com alto potencial antioxidante, como fenólicos e flavonoides. “Como a técnica não utiliza reagentes, esses resíduos não se perdem no processo, podendo ser utilizados para outros propósitos”, explica.

No trabalho, a análise bioquímica revelou que, mesmo após a retirada dos principais ativos, a biomassa residual mantém propriedades que podem ser aproveitadas em novos produtos. “Com o extrato, deixamos de atender apenas o nicho cervejeiro e passamos a alcançar cinco, seis, até dez setores diferentes”, comemora Machado.

O artigo Chemical and biotechnological characterization of supercritical CO2 extracts and residual Humulus lupulus biomass from the Brazilian Atlantic Forest pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s13399-025-06903-z.

Fonte: https://agencia.fapesp.br/tecnologia-impulsiona-producao-de-lupulo-no-brasil/56314

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