Laboratório da Faculdade de Saúde Pública é o único representante das Américas em iniciativa que busca diretrizes éticas e soluções para reduzir desigualdades no acesso à saúde
O Brasil passa a ocupar uma posição estratégica no debate global sobre o uso da inteligência artificial na saúde. O Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (LABDAPS) da Faculdade de Saúde Pública da USP será o único representante das Américas em um consórcio internacional criado pela Organização Mundial da Saúde, cuja reunião inaugural começa nesta semana em Delft, na Holanda.
A iniciativa reúne centros de pesquisa de diferentes países com o objetivo de discutir os desafios e as oportunidades do uso da inteligência artificial em sistemas de saúde. A proposta é estabelecer diretrizes de boas práticas que garantam o uso ético, seguro e eficaz dessas tecnologias, especialmente em regiões com acesso limitado a especialistas.
De acordo com o diretor do LABDAPS, professor Alexandre Chiavegatto Filho, o consórcio surge em um momento de rápida expansão da inteligência artificial aplicada à saúde e tem potencial para reduzir desigualdades no atendimento. “Em áreas remotas, por exemplo, algoritmos podem funcionar como apoio clínico, oferecendo diagnósticos e orientações onde não há médicos especialistas disponíveis.”
O laboratório
Fundado em 2017, o LABDAPS atua na interface entre ciência de dados e saúde coletiva, com foco no desenvolvimento de soluções voltadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). O laboratório cria modelos preditivos que auxiliam na identificação de riscos epidemiológicos, como a mortalidade materna e neonatal, além de analisar desigualdades no acesso à saúde em escala nacional.
O trabalho tem reconhecimento internacional, com publicações frequentes em periódicos de alto impacto. Além da produção científica, o grupo também se destaca pelo compromisso com o uso ético da inteligência artificial, especialmente no enfrentamento de vieses algorítmicos que podem reproduzir desigualdades sociais.
Segundo Chiavegatto Filho, a principal contribuição brasileira para o consórcio está na capacidade de adaptar tecnologias desenvolvidas em grandes centros para realidades mais diversas e desiguais. “O Brasil funciona como um grande laboratório natural”, afirma. “Temos dados de regiões muito distintas, o que nos permite testar se esses algoritmos realmente funcionam onde são mais necessários.”
Entre as estratégias utilizadas pelo laboratório estão técnicas como o aprendizado por transferência, que permite ajustar modelos treinados em contextos ricos em dados para regiões com menos informações disponíveis, e o aprendizado federado, que possibilita o uso de grandes bases de dados, preservando a privacidade dos pacientes.
A participação do LABDAPS no consórcio da Organização Mundial da Saúde coloca o Brasil no centro das discussões sobre o futuro da inteligência artificial na saúde e reforça o papel do SUS como base para inovação científica com impacto social.

