Em tempos marcados por alertas climáticos e pressão crescente sobre a produção de alimentos, São Paulo consolida sua posição como o maior exportador de sementes do Brasil. Para especialistas do setor, o avanço da pesquisa agrícola é um dos fatores que ajudam a explicar esse desempenho.
Dados levantados pelo pesquisador José Alberto Ângelo, do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA), revelam que em 2025 o estado de SP respondeu por 36,2% de todas as exportações brasileiras de sementes, embarcando cerca de 14 milhões de toneladas e movimentando US$ 94,6 milhões. Os destaques foram as sementes de milho para semeadura e as sementes forrageiras, segmentos em que o Brasil tem protagonismo global em pesquisa, produção e desenvolvimento tecnológico.
Nesse contexto, a Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), que reúne sete instituições de pesquisa, possui atuação estratégica na cadeia de sementes. O Instituto de Zootecnia (IZ-APTA) mantém o maior banco de germoplasma de plantas forrageiras da América Latina. O Instituto Biológico (IB-APTA) é referência nacional em sanidade vegetal e segurança fitossanitária. E o Instituto Agronômico (IAC-APTA) é reconhecido internacionalmente pelo desenvolvimento de cultivares adaptadas às condições brasileiras.
No fim de maio, Lisboa recebeu o World Seed Congress 2026, o maior evento global do setor de sementes. Promovido pela International Seed Federation (ISF), o congresso reuniu mais de 1.800 participantes de 78 países e representantes de mais de 900 empresas e organizações, o evento promoveu debates sobre inovação, sustentabilidade, segurança alimentar e os desafios futuros dos sistemas globais de sementes.
O setor global de sementes movimenta cerca de US$ 90 bilhões por ano. As empresas do setor chegam a investir até 30% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento de novas cultivares, um número que ilustra o quanto a inovação genética está no centro da segurança alimentar mundial.
Os dados apresentados pela ISF no congresso são contundentes: só na União Europeia, as inovações em sementes respondem por 74% dos ganhos de produtividade nas lavouras. Com o El Niño de forte intensidade projetado para este ciclo, a dependência da agricultura global por sementes adaptadas e de alta performance nunca foi tão evidente. O Brasil ocupa posição relevante nesse cenário, especialmente pela capacidade de desenvolver cultivares adaptadas às condições tropicais.
Ameaça silenciosa: a pirataria de sementes
Entre os temas centrais do congresso deste ano foi a chamada “pirataria” de sementes, prática que, no Brasil, gera prejuízos estimados em R$ 2,44 bilhões por ano, segundo a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (ABRASEM).
O impacto vai muito além do financeiro. Sementes piratas, definidas pela legislação brasileira como qualquer produto vegetal comercializado como semente sem ter sido produzido a partir de campos registrados no Ministério da Agricultura, não oferecem garantia de germinação, pureza varietal ou sanidade fitossanitária. Além disso, lavouras plantadas com esse material não podem ser seguradas. As espécies mais vulneráveis à pirataria no país são o feijão (80% das sementes utilizadas são piratas), o arroz (44%), o algodão (43%), a soja (29%) e o trigo (25%).
“A pirataria é muito desfavorável às cadeias agrícolas porque o agricultor vai semear algo que muitas vezes ele não conhece, que pode ter problemas de doença ou germinação. Além disso, ela vai contra os processos de inovação tecnológica”, alerta o pesquisador e melhorista de plantas do Instituto Agronômico (IAC-APTA), Alisson Fernando Chiorato.
“Quando o agricultor opta pela semente certificada, ele também ajuda a investir em mais pesquisas. O recolhimento de royalties permite continuidade ao melhoramento genético e ao desenvolvimento de novas tecnologias que retornarão para o próprio produtor” acrescenta.
O único no Estado de São Paulo que realiza o controle de qualidade e a validação normativa de sementes importadas é o Laboratório de Análise de Sementes e Mudas da CATI, também vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Credenciado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e membro associado da International Seed Testing Association (ISTA), o laboratório emite boletins oficiais nos padrões internacionais exigidos pelo mercado global, além de atuar diretamente na análise de amostras da fiscalização de produtores paulistas.
Atualmente, a CATI Sementes e Mudas, coordenadoria da CATI à qual o Laboratório se integra, opera com um centro de produção e três núcleos dedicados a sementes, garantindo insumos com certificação genética, fisiológica e sanitária.
Expandindo suas frentes de pesquisa, o órgão também lidera um projeto em parceria com a Embrapa Florestas e o LASO-MG para o desenvolvimento da metodologia de análise de sementes de mogno africano.
A participação da SAA através da APTA no World Seed Congress ocorre em um momento de expansão das discussões globais sobre inovação genética, segurança alimentar e adaptação da agricultura às mudanças climáticas.

