Inflação deve subir até o fim deste ano e voltar a cair até 2028
O Banco Central (BC) manteve em 1,6% a projeção de crescimento da economia em 2026. Em seu RelatĂłrio de PolĂtica MonetĂĄria, divulgado nesta quinta-feira (26), a autarquia destaca, entretanto, que a atual previsĂŁo para o Produto Interno Bruto (PIB â soma de todos os bens e serviços finais produzidos pelo paĂs) estĂĄ sujeita a âmaior incertezaâ diante dos potenciais efeitos dos conflitos no Oriente MĂ©dio.
âSe prolongado [o conflito], seus impactos predominantes, no paĂs e no exterior, devem ser consistentes com um choque negativo de oferta, aumentando a inflação e reduzindo o crescimento, ainda que alguns setores da economia brasileira, especialmente o petrolĂfero, possam se beneficiarâ, diz o relatĂłrio do BC.
âSe a distribuição de mercadorias continuar interrompida e a capacidade de produção reduzida na regiĂŁo por muito tempo, o impacto sobre os preços e a atividade pode ser duradouro e significativoâ, acrescentou a autarquia.
O dado para o PIB Ă© referente ao primeiro trimestre deste ano, sendo o mesmo valor daquele divulgado no relatĂłrio de dezembro. âA estabilidade da projeção de crescimento anual decorre do resultado do quarto trimestre de 2025, prĂłximo ao esperado, e da manutenção da perspectiva de expansĂŁo trimestral moderada ao longo de 2026â, diz o relatĂłrio.
âEsse cenĂĄrio Ă© condicionado pela expectativa de polĂtica monetĂĄria em campo restritivo [juros altos], pelo baixo nĂvel de ociosidade dos fatores de produção, pela perspectiva de desaceleração da economia global e pela ausĂȘncia do impulso agropecuĂĄrio observado em 2025â, explicou o BC.
Em 2025, o PIB do Brasil fechou em 2,3%, com expansĂŁo em todas as atividades, mas puxado principalmente pela agropecuĂĄria.
Segundo a autarquia, o cenĂĄrio para 2026 incorpora tambĂ©m estimativas dos efeitos de medidas recentes com potencial de sustentar a demanda domĂ©stica, como o aumento real do salĂĄrio mĂnimo e a isenção ou o desconto no Imposto de Renda Pessoa FĂsica (IRPF) para quem ganha atĂ© R$ 5 mil ou R$ 7 mil.
No mesmo sentido, o mercado de trabalho continua aquecido, com queda do desemprego e aumento dos salĂĄrios.
O relatĂłrio do BC apresenta as diretrizes das polĂticas adotadas pelo ComitĂȘ de PolĂtica MonetĂĄria (Copom) para a definição da taxa bĂĄsica de juros, a Selic, e avalia a evolução recente e as perspectivas da economia, especialmente as projeçÔes de inflação. A Selic Ă© o principal instrumento do BC para manter a inflação sob controle.
De setembro de 2024 a junho de 2025, a Selic foi elevada sete vezes seguidas, mas nĂŁo foi alterada nas cinco reuniĂ”es seguintes do Copom. ApĂłs esse perĂodo prolongado de manutenção da taxa em 15% ao ano, na semana passada, ele foi reduzida para 14,75% ao ano.
Diante das incertezas provocado pelo conflito no Oriente Médio, o BC não descarta rever o ciclo de baixa, caso seja necessårio.
Inflação
O BC ressalta que a inflação deve subir até o fim de 2026, recomeçando trajetória de queda até o horizonte relevante, mas ainda permanecendo acima da meta. A meta estipulada pelo Conselho Monetårio Nacional (CNM) é 3%, com intervalo de tolerùncia de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, isto é, de 1,5% a 4,5%.
Segundo a autarquia, o Ăndice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) â referĂȘncia oficial da inflação no paĂs â deve terminar o ano em 3,6%, âem boa medida advinda do aumento dos preços do petrĂłleoâ.
A probabilidade de a inflação estourar o teto da meta (4,5%) em 2026 subiu de 23% para 30% neste RelatĂłrio de PolĂtica MonetĂĄria.
De acordo com o documento, a partir do ano que vem, a inflação volta a cair, chegando a 3,1% no Ășltimo perĂodo considerado, referente ao terceiro trimestre de 2028. âNo horizonte relevante de polĂtica monetĂĄria, ou seja, o terceiro trimestre de 2027, a inflação projetada Ă© 3,3%â, diz o BC.
Crédito
A projeção para o crescimento do saldo do crĂ©dito ofertado tanto para pessoas fĂsicas quanto para empresas em 2026 aumentou de 8,6% para 9%. O crescimento Ă© puxado principalmente pelo desempenho acima do esperado do crĂ©dito livre a pessoas fĂsicas e do direcionado a pessoas jurĂdicas. As projeçÔes desses segmentos aumentaram 0,5 ponto percentual, para 9,5% e 11,5%, respectivamente.
No crĂ©dito livre, os bancos tĂȘm autonomia para emprestar o dinheiro captado no mercado e definir as taxas de juros cobradas dos clientes. JĂĄ o crĂ©dito direcionado â com regras definidas pelo governo â Ă© destinado basicamente aos setores habitacional, rural, de infraestrutura e ao microcrĂ©dito.
Apesar do aumento, a projeção atualizada segue indicando desaceleração do crédito pelo segundo ano consecutivo. O saldo do crédito no Sistema Financeiro Nacional (SFN) cresceu 10,3% em 2025, abaixo da variação de 11,5% observada em 2024.
âA desaceleração esperada Ă© consistente com o cenĂĄrio prospectivo para a atividade econĂŽmica domĂ©stica e com os efeitos correntes e defasados da polĂtica monetĂĄria [de aumento da Selic], em contexto de endividamento e comprometimento de renda elevadosâ, explicou o BC.
Contas externas
A projeção de dĂ©ficit em transaçÔes correntes, que sĂŁo as compras e vendas de mercadorias e serviços e transferĂȘncias de renda com outros paĂses, foi reduzida em relação ao relatĂłrio anterior, passando de R$ 60 bilhĂ”es para US$ 58 bilhĂ”es (2,2% do PIB) em 2026, em função da melhora na projeção do saldo comercial, apoiado em crescimento das exportaçÔes superior ao das importaçÔes.
A elevação do valor projetado para as exportaçÔes vem da combinação de ligeiro aumento do volume esperado e, principalmente, da perspectiva de preços mais altos. Segundo o BC, a principal mudança em relação ao relatĂłrio de dezembro vem da alta dos preços de combustĂveis como resultado do conflito no Oriente MĂ©dio, com impacto na projeção de exportação de petrĂłleo.
Esse dĂ©ficit externo estarĂĄ financiado por capitais de longo prazo, principalmente pelos investimentos diretos no paĂs (IDP), que tĂȘm projeção do fluxo lĂquido de entrada de US$ 70 bilhĂ”es (2,7% do PIB).
Por outro lado, o conflito no Oriente MĂ©dio eleva os riscos e a incerteza com a redução do fluxo comercial no Estreito de Ormuz, com possĂveis repercussĂ”es no comĂ©rcio internacional, nas cadeias de produção e nas condiçÔes financeiras globais.

