Injeção de recursos nas economias locais ocorre pela criação de 8,3 mil empregos diretos e também se reflete em maior arrecadação de impostos como o ISS e o ICMS
As universidades públicas são um polo de ensino, ciência, extensão e inovação, desenvolvendo atividades como a formação de novos profissionais, a produção de conhecimento científico e novas tecnologias, a realização de projetos extensionistas nas comunidades e a promoção da inovação entre seus alunos. Mas o impacto desta atuação torna-se ainda mais evidente quando observamos instituições de grande porte, como a Unesp.
Com seus 50 anos de existência e presente em 24 cidades do estado de São Paulo, a Universidade Estadual Paulista tem se mostrado um ator bastante relevante nos municípios em que atua, em especial no âmbito econômico. No entanto, até a década de 1990 esse impacto ainda não havia sido mapeado de forma sistematizada. A questão motivou o economista e professor da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLar) José Murari Bovo a investigar o tema e reunir dados públicos para responder à pergunta: qual é o impacto econômico da Unesp?
O estudo foi conduzido inicialmente em 1996 e recebeu atualizações em 2002, 2008 e 2012. A edição mais recente foi lançada no final de 2025 e foi elaborada com base em dados coletados em 2022. Os resultados foram publicados no livro A Unesp e os Municípios, do selo Cultura Acadêmica, pertencente à Editora Unesp.
Na nova edição, a coordenação do estudo ficou a cargo de Bovo e de Cláudio Cesar de Paiva, docente de economia e diretor da FCLar. A dupla utilizou as bases de dados fornecidas pela Assessoria de Planejamento Estratégico da Reitoria da Unesp, pela execução orçamentária das prefeituras municipais, pelas delegacias regionais da Receita Estadual e pela Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Além de questionário aplicado ao corpo discente e trabalho de campo feito com diversos setores econômicos dos municípios. O estudo concentrou-se nas 23 cidades do interior paulista em que a Unesp está presente, desconsiderando a capital do estado.
O tratamento dos dados contou ainda com uma equipe formada por nove coordenadores locais, uma consultora estatística, duas bolsistas e uma assessora administrativa, todos docentes, servidores ou alunos da instituição. A formação dessa equipe foi essencial para cobrir a extensão das atividades da Universidade, especialmente considerando a sua expansão nos últimos 30 anos.
Segundo Bovo, os dados encontrados demonstram a relevância da Unesp para os municípios, para o estado de São Paulo e para o país. “Também é possível fazer uma reflexão mais ampla: qual é a importância das universidades públicas para o Brasil?”, questiona.
Crescimento da Unesp e a sua contribuição econômica para os municípios
De 1976 até 2022, a Unesp vivenciou uma expansão acelerada. Nesse período, o número de alunos de graduação aumentou 91,51%, enquanto os de pós-graduação cresceram 129%. A produção científica também se mutiplicou significativamente: o número de dissertações de mestrado aumentou 219% e o de teses de doutorado, 521%.
Tamanho crescimento fez com que as atividades acadêmicas e administrativas desenvolvidas nas 24 unidades universitárias e na Reitoria gerassem, somente em 2022, cerca de 8.300 empregos diretos, o que resultou na injeção de mais de R$2,8 bilhões na economia dessas cidades. Esse valor é superior à soma das receitas tributárias dos municípios de São José dos Campos e de Sorocaba em 2022, estimadas em R$1,1 bilhão e R$1,3 bilhão, respectivamente.
Paiva afirma que a geração de empregos com salários considerados altos para as médias dos municípios beneficia muito a economia local, já que esses valores são revertidos em gastos de produtos, serviços e até moradia. “O aumento do consumo nas cidades atrai mais comerciantes e transforma a dinâmica econômica desses espaços”, diz ele.
Essa contribuição também pode ser observada na arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), tributo que incide sobre a circulação de mercadorias e sobre a prestação de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação. De acordo com o estudo, entre 2015 e 2022 cerca de R$51,6 bilhões retornaram aos municípios analisados por meio do chamado ICMS-Unesp — referente à parcela do imposto associada à presença da Universidade — e da quota-parte municipal da arrecadação do tributo. Desse total, 17,20%, ou mais de R$13 bilhões, foram gerados em razão da existência da Unesp, Paiva afirma que se considerarmos os dados até 2025, esse valor sobe para R$26 bilhões.
“A análise do ICMS é importante para entender quanto os municípios arrecadam em impostos e qual parcela desse valor está relacionada à presença da Universidade”, explica Bovo. Esses números indicam o quanto a instituição contribui para a geração de receitas tributárias nas cidades onde está instalada.
No entanto, como destaca o livro, esse não é o único tipo de retorno econômico. O fluxo constante de estudantes também movimenta diversos setores da economia local. “Um exemplo são os gastos com moradia de alunos, que ajudam a dinamizar o mercado imobiliário”, ressalta o pesquisador.
E a cultura de criação de repúblicas universitárias (casas que abrigam três ou mais discentes) é um grande diferencial no setor imobiliário, pondera Paiva. “Há diversas residências antigas, com quatro ou cinco quartos, que não existe procura de moradores. Porém, grupos de alunos têm alugado esses casarões para construir suas repúblicas e isso ajuda a movimentar, ainda mais, o setor imobiliário”, explica. “Diversos profissionais da área confirmaram que a Unesp é um fator fundamental no dinamismo do mercado imobiliário local”, diz.
Quando se somam despesas com aluguel, manutenção, alimentação, transporte, cursos, material didático e lazer, o gasto anual dos estudantes chega a R$1,09 bilhão nos 23 municípios analisados. Parte desse valor retorna aos cofres municipais por meio da arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS).
A construção de uma metodologia pioneira
Bovo explica que as bases metodológicas para a pesquisa vieram de um estudo canadense que analisou os impactos das atividades de pesquisa da Universidade de Montreal e de instituições associadas, como escolas, hospitais e institutos afiliados. “Entretanto, essa pesquisa era muito mais ampla, com uma equipe grande trabalhando em conjunto”, comenta. Apesar de utilizar o estudo como referência, Bovo precisou desenvolver, junto com outros pesquisadores e alunos, uma metodologia própria para analisar os dados da Unesp. “Eu comecei com poucos recursos, que foram aumentando com o passar das edições, já que o interesse pelo estudo era muito grande”, afirma.
No início, a equipe era mais enxuta, contando com poucos pesquisadores e bolsistas, e o docente costumava viajar para os diferentes câmpus da Universidade para coletar e tratar os dados econômicos necessários. Com o passar do tempo, o projeto ganhou um escopo maior, já que descrevia informações interessantes para os gestores da Instituição e dos municípios em que as unidades estão sediadas.
“Esse projeto, idealizado pelo professor Bovo, permitiu que a comunidade universitária tivesse uma outra dimensão da instituição. Entendemos a Universidade como um polo de formação de alunos e de produção de ciência. Mas depois desse estudo, passamos a compreender como os recursos injetados nos municípios, por meio da Unesp, transformam todo o território”, destaca Paiva.
Atualmente, esses dados são utilizados pelos gestores da Universidade para demonstrar a importância econômica da instituição nesses municípios. “Quando precisamos negociar com prefeitos ou deputados estaduais das regiões em que há a Unesp, costumamos apresentar esses dados, porque, assim, conseguimos comprovar o nível de desenvolvimento grandioso que a Universidade tem”, ressalta o diretor da FCLar.
Impacto se dá também em serviços
Embora o estudo evidencie um impacto econômico significativo, o pesquisador ressalta que esse resultado não representa a totalidade da atuação da Universidade, que é muito mais abrangente.
Na esfera social, a Unesp também é reconhecida pela prestação de serviços às comunidades, como atendimentos médicos, odontológicos, farmacêuticos, veterinários, fonoaudiológicos, psicológicos e fisioterapêuticos, além de diversos projetos de extensão que impactam diretamente o cotidiano das populações atendidas.
O livro A Unesp e os Municípios pode ser baixado gratuitamente no site do selo Cultura Acadêmica.
