Representantes do Governo de São Paulo, Sabesp, IFC e iniciativa privada destacam carteira de obras, soluções baseadas na natureza e novos modelos de financiamento para enfrentar os desafios climáticos
Planejamento de longo prazo, projetos estruturados e diferentes fontes de financiamento foram apontados como elementos fundamentais para garantir a segurança hídrica diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas. O tema foi debatido nesta quarta-feira (17), durante o painel “Segurança hídrica como agenda de investimento: onde estão os projetos?”, realizado no SP Conecta.
Moderado pela jornalista Beatriz Bulla, o encontro reuniu o secretário estadual de Parcerias em Investimentos, Rafael Benini; o CEO da re.green, Thiago Picolo; o Head de Investimentos em Infraestrutura no Brasil da International Finance Corporation (IFC), João Carneiro; e o diretor de Relações Contratuais e Institucionais da Sabesp, João Paulo Tavares Papa.
Ao responder sobre os investimentos mais urgentes e estratégicos para ampliar a segurança hídrica no Estado, Rafael Benini destacou uma carteira de projetos voltada tanto à ampliação da oferta de água quanto à melhoria da drenagem urbana. “Temos vários projetos grandes para serem lançados. O primeiro é a questão do desassoreamento dos rios Pinheiros e Tietê. Estamos falando de mais de R$ 10 bilhões em investimentos por meio de uma parceria público privada. Vejo esse projeto como um projeto de resolução da drenagem da Região Metropolitana de São Paulo. São Paulo é cercada por serras e todos os rios vão para o Tietê. Enquanto não tivermos capacidade de escoamento no Tietê, não conseguimos fazer um planejamento eficaz da drenagem”, afirmou.
O secretário destacou ainda a necessidade de ampliar a segurança hídrica no noroeste paulista, região que depende fortemente dos aquíferos subterrâneos.”No noroeste paulista, a captação de água vem dos aquíferos e a necessidade de buscar água está cada vez mais profunda. A ideia é fazer a transposição do Rio Grande dentro do programa UniversalizaSP”, comentou.
Ao comentar o avanço de soluções inovadoras para ampliar a resiliência hídrica, Rafael Benini destacou a incorporação de iniciativas ambientais aos projetos de infraestrutura do Estado. Como exemplo, citou a segunda fase da Barragem do Piraí, que prevê a implantação de um parque linear no entorno do reservatório para contribuir com a preservação da área, além de projetos de corredores verdes e de restauração de parques estaduais. O secretário também ressaltou o crescimento de empresas especializadas em restauração ambiental e serviços ecossistêmicos. “O crescimento dessas empresas ajuda o Estado a pensar em projetos que antes não pensava”, disse.
Já o diretor da Sabesp, João Paulo Tavares Papa, ressaltou os desafios impostos pela baixa disponibilidade hídrica da Região Metropolitana de São Paulo. “A Região Metropolitana de São Paulo tem mais de 20 milhões de habitantes e uma disponibilidade hídrica de 149 metros cúbicos por habitante por ano, enquanto a recomendação da ONU é de mil metros cúbicos por habitante por ano”, destacou.
Segundo ele, esse cenário exige planejamento de longo prazo e investimentos permanentes. “Os novos contratos assinados com os municípios após a desestatização da Sabesp preveem um Plano de Resiliência Hídrica até 2060. A primeira fase desse plano já foi concluída e entregue à Arsesp. Ele prevê ações de curto prazo até 2030 e será revisado a cada cinco anos até 2060, considerando especialmente a integração entre os sistemas e a busca por redundância.”
Papa defendeu que o fortalecimento da segurança hídrica passa pela ampliação das conexões entre os sistemas produtores de água, estratégia considerada fundamental diante dos impactos das mudanças climáticas. “Não há outra forma de enfrentar a pressão das mudanças climáticas do que investir em resiliência, diversificação e integração entre os sistemas”, afirmou. Como exemplo dessa estratégia, o diretor citou a transposição do Rio Itapanhaú, já em andamento, e a futura ligação entre Taiaçupeba e Billings, atualmente em discussão. “O principal projeto que está sendo discutido agora é o Taiaçupeba-Billings, com a intenção de trazer mais 4 mil litros por segundo para o sistema integrado. Quanto maior a integração, maior a resiliência do sistema.”
Ao abordar os efeitos da desestatização da companhia, Papa afirmou que o novo modelo está apoiado em contratos e metas formalmente estabelecidos. “O processo de desestatização é algo concreto. Ele se apoia em contratos assinados com o poder concedente e os municípios, com prazos, metas e índices de qualidade auditados e controlados pela Arsesp. Não trabalhamos com planos subjetivos. As regras estão estabelecidas em contrato e há penalidades em caso de descumprimento.”
Thiago Picolo destacou também a relação entre restauração ecológica e recuperação dos recursos hídricos. “Esse é o primeiro evento sobre água de que participo e acho essa conexão perfeita. Somos uma empresa de restauração ecológica. Nossa perspectiva é que, daqui a 30 ou 40 anos, essas áreas estejam restauradas e se pareçam o máximo possível com uma floresta primária. E, junto com a floresta, a água também esteja restaurada.” A re.green atua atualmente em projetos na Mata Atlântica e na Amazônia.
João Carneiro, do IFC, destacou que o Brasil avançou significativamente na estruturação de projetos de infraestrutura nos últimos anos, o que amplia a segurança para investidores e financiadores. “Tendo projetos bem estruturados, temos financiamento. Ainda faltam projetos para grande parte do País”, declarou. De acordo com ele, diferentes instrumentos podem apoiar investimentos em segurança hídrica, incluindo o mercado de capitais, bancos comerciais e organismos multilaterais.
Sobre o SP Conecta
Promovido pela InvestSP em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), o SP Conecta integra a Agenda SP+Verde, iniciativa do Governo de São Paulo voltada à atração de investimentos e à implementação de políticas ligadas à transição ecológica.
Ao longo de dois dias, o evento reúne representantes do poder público, da iniciativa privada, da academia e de organismos internacionais para discutir caminhos para ampliar a resiliência climática, fortalecer a segurança hídrica e consolidar São Paulo como polo de investimentos sustentáveis.
